quarta-feira, 1 de abril de 2009

# 1 - Coréia do Norte e a política do "Nuke for food".


Por Leonardo Luiz Silveira da Silva, 2/4/2009
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A Coréia do Norte pareceu-me esquecida durante o período compreendido entre 1991 e 2001. Permanece desde 1991 com a imponente cortina de Ferro dinossáurica que teima em não cair. Um enclave do protecionismo, do fechamento e da centralização do Estado, da planificação de sua frágil economia frente ao mundo globalizado e com o comércio crescente. Antes de 1991 a Coréia do Norte era um dos aliados de Moscou. Depois de 1991 tornou-se somente o símbolo de um totalitarismo inconseqüente que coloca o bem-estar de sua população em um segundo plano em relação aos gastos militares. Depois dos atentados terroristas de 2001, Bush proferiu em um dos seus interessantes discursos demagógicos pós- atentados que existia um eixo do mal ao qual a Coréia do Norte fazia parte. Acrescentou ao eixo do mal o Iraque e o Irã. Disse isso no contexto de uma vitória militar já anunciada contra o Afeganistão. Ou seja, além do Afeganistão, as ameaças à ordem mundial são os Estados que não possuem um bom comportamento à luz do entendimento intersubjetivo da comunidade internacional. Dos países integrantes do eixo do mal anunciado por George W. Bush, o Iraque foi invadido e o Irã sofre com pressões de organismos internacionais e de potências ocidentais para que não enriqueça o seu urânio, matéria-prima da tão temida bomba atômica, instrumento político-militar capaz de desorganizar a balança de poder de qualquer região do planeta.
A Coréia do Norte, por sua vez, parece ter deixado sua estratégia clara. Um regime capenga com sérios problemas econômicos e com elevados gastos militares, precisa de ajuda. Como é um componente excêntrico da comunidade internacional, pelos seus comportamentos, não consegue ajuda facilmente. A Coréia do Norte está para a comunidade internacional assim como um penetra mal vestido e com péssimos hábitos de higiene está para uma festa chique. Ninguém quer servir o penetra, a não ser que o fato de ignorá-lo possa causar um problema de dimensões maiores do que a sua indesejável presença. Ninguém quer ajudar a Coréia do Norte, a não ser que o fato de ignorá-la possa causar um problema maior do que os seus excêntricos comportamentos, a saber: gastos militares em relação ao PIB altíssimos, regime totalitário, economia planificada, poucas relações diplomáticas (o Brasil, por exemplo acaba de estabelecer uma embaixada em Pyongyang) e comerciais. Dentre os bons comportamentos de um Estado moderno estão o cumprimento de compromissos internacionais, a abertura econômica, a participação de fóruns internacionais, a assinatura de Relevantes Tratados tidos como indispensáveis para a harmonia do sistema internacional de nações(como o TNPN – tratado de não proliferação nuclear - , Protocolos de Montreal e Kyoto, dentre outros), além de não realizar uma corrida armamentista, respeitar os direitos humanos e combater o terrorismo e outras atividades criminosas em seu território. Definitivamente a Coréia do Norte não possui um bom comportamento à luz do entendimento intersubjetivo do que é um bom comportamento. Mesmo assim o país de Kim Jong Il consegue ajuda.
Mas que tipo de ajuda vem recebendo a Coréia do Norte? Que tipo de barulho que o regime de Kim Jong Il poderia produzir caso não receba ajuda?
Segundo o site Tribuna do Norte[1], por exemplo, “a Coréia do Norte estaria disposta a paralisar seu reator nuclear de Yongbyon em troca de 500 mil toneladas anuais de combustível ou de outro tipo de energia. O regime também estaria disposto a permitir a entrada no país de inspetores internacionais em troca da eliminação de restrições financeiras impostas por Washington”. A entrada de tais inspetores ligados às agências de energia nuclear são um dos pontos vitais para garantir a segurança do Leste asiático, à medida que um teste atômico norte-coreano poderia desestabilizar a região.
O que nos chama a atenção nos últimos dias é a insistência da Coréia do Norte em lançar um satélite de telecomunicações. O lançamento é assistido por preocupação por algumas razões. A primeira é que nada garante que um lançamento mal sucedido não possa causar o arremesso de fragmentos do artefato norte-coreano em países vizinhos. O Japão já deixou explícita a sua preocupação neste sentido. A segunda é que o lançamento de satélites representa um avanço na indústria aeroespacial, que pode servir como um benefício à população como também como uma maior capacitação militar. A terceira é que se analisarmos apenas pelo prisma da comunicação, um lançamento desta natureza pode significar um ganho de poder ao regime de Pyongyang.
A resolução 1718[2] do Conselho de segurança da ONU, de outubro de 2006, recomenda à Coréia do Norte a suspender as atividades ligadas ao desenvolvimento de mísseis balísticos. Para tanto, a Coréia do Norte vem recebendo ajuda internacional através de energia e comida principalmente. É a política do “Nuke for food”, ou seja, mísseis por comida. Através das ameaças militares o governo de Pyongyang consegue permanecer militarmente forte ao passo que consegue ajuda internacional para aliviar o sofrimento de uma população atendida por um Estado que prioriza os gastos militares em detrimento dos gastos sociais.
Os Estados Unidos já alertaram, neste 1 de Abril, que recorrerão à ONU(mesma instituição que não levou em conta na discussão sobre a legitimidade de um ataque ao Iraque) caso a Coréia do Norte lance o satélite, como informa a reportagem da folha on line[3]. Basta saber se a resolução desta crise passará pelo aumento da cota de comida e energia do regime chantageador de Pyongyang.

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Citações

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[1] http://tribunadonorte.com.br/noticia.php?id=34031
[2] http://eur-lex.europa.eu/Notice.do?mode=dbl&lang=pt&ihmlang=pt&lng1=pt,mt&lng2=bg,cs,da,de,el,en,es,et,fi,fr,hu,it,lt,lv,mt,nl,pl,pt,ro,sk,sl,sv,&val=436036:cs&page=
[3] http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u544069.shtml

2 comentários:

  1. O ensaio pareceu-me muito sensato e de opinião bem fundamentada historicamente. A afirmação de um regime totalitário da Coréia do Norte, no entanto, não seria anacrônico? Parece-me que depois de Origens do totalitarismo, livro de Arendt, afirmar que um país é totalitário é enquadrá-lo em: existência de campo de extermínio, líder de um movimento (o que não parece ser o caso já que não há um movimento mas uma tentativa de imposição do autoritarismo), polícia secreta e o terror "comendo a própria carne", além do inimigo externo. Por isso, acho que trata-se mais de um regime ditador, autoritário, antirepublicano, segundo concepção de Montesquieu, ou seja, trata-se do velho esquema de governo que confunde violência e poder, obediência e comando pela força.

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  2. Você tem razão. O totalitarismo utilizado no texto foi um descuido semântico não deliberado.
    Na tentativa de qualificar o regime, acabei caindo nesta armadilha semântica.
    Bem lembrado.

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